Notícia

A bolsa que funciona

Data: 03/02/2015

Mesmo em ano de queda, 97 fundos de ações ativos conseguem retorno positivo em 2014. Por Sérgio Tauhata, de São Paulo


Após cair mais de 15% em 2013, o Índice Bovespa, principal indicador da bolsa brasileira, fechou o ano passado com mais um recuo, de 2,91%. Isso depois de o mercado ter enfrentado um período de altíssima volatilidade devido ao ano eleitoral. Os resultados e o ambiente reforçam uma visão pessimista sobre a renda variável no país que tem contaminado cada vez mais investidores. Mas, ao contrário do que sugerem os retornos recentes do Ibovespa, nem tudo são perdas no mercado acionário.


Em 2014, quase uma centena de fundos de ações ativos conseguiu marcas positivas. Algumas carteiras superaram até mesmo os polpudos 10,81% de retorno do Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI) ao longo do ano.


Levantamento realizado pelo consultor Marcelo d’Agosto, a partir de dados da provedora de informações financeiras Morningstar, com fundos de ações de gestão revela que 147 carteiras de um total de 338 conseguiram superar o Ibovespa, considerado o ‘benchmark’, ou seja, o referencial de resultados do segmento.


A lista inclui apenas portfólios com mais de dez cotistas e acima de R$ 6 milhões em patrimônio liquido, para excluir os chamados fundos exclusivos. Também foram desconsideradas as carteiras com estratégias setoriais ou que aplicam em apenas um papel e também aquelas com estratégia focada em Brazilian Depositary Receipt (BDR), recibos de ações de empresas estrangeiras negociadas na bolsa brasileira.


Entre os que superaram o Ibovespa, 97 fundos tiveram retornos positivos. Desse total, 22 carteiras fecharam o ano passado tanto acima do IPCA, que encerrou 2014 em 6,41%, quanto da poupança, com rendimento de 7,04%. E um seleto grupo de seis carteiras ainda bateu o CDI.


Se for considerado um horizonte mais amplo de investimento, o levantamento aponta ampla vantagem da gestão ativa sobre o benchmark. Em uma análise em termos de retornos anualizados, o ranking compilado por d’Agosto mostra que, entre 252 fundos com pelo menos três anos de histórico, 219 superam o Ibovespa, ou seja, 87% do total. Já o rendimento anualizado do CDI, somente 15 carteiras superam.


Em um período de cinco anos, de um total de 197 portfólios, nada menos que 154, ou seja, 78% batem o principal indicador da bolsa. E, desses, novamente apenas 15 carteiras superam o referencial conservador na comparação entre retornos anualizados.


O campeão entre os portfólios de ações ativos em 2014, o fundo “long biased” do Brasil Plural, acumulou um retorno de 17,83%. A carteira ganhou tanto na subida quanto na queda da bolsa no ano passado, devido à possibilidade de assumir posições vendidas, segundo Carlos Eduardo Rocha, o Duda, sócio responsável  pela área de gestão de recursos do banco. “[O long biased] é um tipo de produto que tem cada vez mais entrada, porque tem esse ‘bias’ [viés], que possibilita alguma proteção em cenários difíceis”, afirma o gestor.


De acordo com Rocha, a disciplina na gestão de risco, com escolha de papéis blindados contra os riscos eleitorais e a desaceleração da economia, foi um dos pilares para o bom resultado no ano passado. “Tivemos de concentrar mais o portfólio. Focamos em empresas com fundamentos sólidos. Geradoras de caixa, sem exposições ao dólar ou a um risco de racionamento. Também colocamos que as empresas deveriam crescer mais de 15%, ter gestão muito acima da média e, de preferência, serem líderes de mercado, com mais poder de barganha”, diz.
O segundo lugar do pódio foi ocupado também pelo Brasil Plural, com o fundo Plural FIC FIA,um Ibovespa Ativo, que acumulou retorno de 13,69% em 12 meses até dezembro.


Com rentabilidade quase idêntica à do segundo colocado, o BTG Absoluto conseguiu o terceiro maior retorno entre os fundos ativos, com 13,53%. O sócio responsável pela renda variável do BTG, José Zitelman, também cita a escolha de uma carteira menor e de maior qualidade como estratégia para o resultado positivo no ano passado. “A concentração foi um dos nossos pilares no ano passado. Quando a gente encontra uma história boa à gente aloca um bom percentual nessa história. Se pegar as cinco maiores posições, o grupo vai ter cerca de 50% da alocação. E as 10 maiores representam 70% da carteira”, afirma o gestor.


Embora a concentração possa, eventualmente, amplificar o risco do portfólio, os filtros aplicados, conforme Zitelman são rigorosos. “A gente sempre prefere investir nas empresas premium, mesmo que uma outra mediana esteja mais barata”, diz o sócio do BTG.


Com 12,64% de retorno, o Apex Infinity é outro long biased de destaque em 2014. Para Fábio Spinola Vianna, sócio da Apex, “a possibilidade de adotar posições vendidas vai ser sempre importante na bolsa”. O gestor explica que há posições vendidas desde o inicio do fundo, em 2012.


Outro integrante do clube que superou tanto o benchmark quanto o custo de oportunidade, o Quest Total Return obteve 12,36% de rendimento bruto no ano passado. Segundo Alexandre Silvério, sócio responsável pela gestão dos fundos da Quest, a estratégia vencedora incluiu uma mistura de posicionamento tático para aproveitar a volatilidade provocada pelas eleições com uma leitura macro minuciosa para identificar empresas descontadas, mas que tivessem menor exposição a fatores como dólar mais forte e atividade econômica fraca. “A gente optou por evitar ações de setores muito alavancados e que precisam de crédito para gerar receita, e focamos em empresas com receitas estáveis e previsibilidade. Acho que isso foi um grande acerto”. Conta.


Segundo Silvério, os melhores resultados vieram de papéis de consumo, alimentos e bancos. “Um acerto foi termos assumido baixa exposição em varejo de eletroeletrônicos e de construção”

 

As estratégias para 2015 dos gestores mais rentáveis


Ano difícil, afirmam em uníssono os gestores responsáveis pelos fundos ativos de melhor performance em 2014 ao analisar as perspectivas para 2015. Os motivos? Racionamentos de água e energia, Petrobras, PIB quase zero e dólar forte, no Brasil; commodities em baixa, desaceleração chinesa e subida de juros americanos, no exterior. Os eventos representam os principais riscos a serem monitorados neste ano, segundo o grupo.


A luz no fim do túnel para a bolsa, no entanto, pode vir do governo. “Por mais recessivos que sejam em um primeiro momento, os ajustes anunciados pela nova equipe econômica são positivos no longo prazo”, considera Fabio Spinola Vianna, sócio-gestor da Apex Capital. “Com a nova equipe econômica você pode ter um cenário para três anos: depois dos ajustes, o mercado anteciparia expectativa de um ambiente no qual o país possa voltar crescer”, acrescenta Carlos Eduardo Rocha, o Duda, sócio responsável pela área de gestão de recursos do Brasil Plural.


Apesar do consenso em relação aos riscos, o cenário resultante de todos os fatores, positivos e negativos, para o ano, entretanto, divide opiniões. “Acho que 2015 pode ser um ano com ótimas oportunidades de compra”, afirma Vianna, da Apex. “No momento em que o fiscal sair de uma perspectiva negativa para uma positiva e [o governo] conseguir convencer o mercado de que isso é duradouro, o cenário se torna positivo para a renda variável”, considera. E, para o gestor, a mudança pode ocorrer no segundo semestre. Nesse cenário, diz Vianna, “a bolsa estaria barata”.


Segundo José Zitelmann, chefe de renda variável do BTG Pactual, neste ano a gestora deverá ser ainda mais seletiva que em 2014. “Este ano não vai ser muito diferente do ano passado, talvez mais difícil. A gente procura investir em empresas vencedoras e que têm uma dinâmica própria de crescimento. Em 2014, Renner, Itaú, BB Seguridade e BRF foram exemplos de cases e que podem manter a performance mesmo em cenário adverso”, explica.


Na visão de Alexandre Silverio, sócio responsável pela gestão dos fundos da Quest, 2015 “vai ser um ano de passagem que estou chamando de ponte”. Para o gestor, a expectativa é que as medidas anunciadas pela equipe econômica interrompam uma deterioração e mude as bases para uma retomada da economia a partir de 2016. “Diante disso a gente se posicionou em alguns papéis que se beneficiam dessa correção de rota, como concessões rodoviárias”, explica. Em relação ao cenário de atividade fraca, a gestora optou por uma carteira defensiva. “ com preponderância de setores que dependem menos da atividade econômica para se recuperar”. Silverio cita empresas de papel e celulose, de perfil exportador, que se beneficiam de um dólar mais forte.


O diretor da XP Gestão de Recursos, Patrick O´Grady, também considera importante garimpar empresas descoladas da atividade econômica. “Mantemos a preocupação do ano passado, de selecionar empresas, passando por um processo de crescimento de lucratividade mais particular a ela.”


O’Grady aponta empresas do setor financeiro como um exemplo desse tipo de papel. “Nos serviços financeiros, como Cetip e BB Seguridade, há demanda cativa. No setor bancário, estamos vendo uma história muito particular, com bancos públicos puxando o freio, e os privados com mais espaço para crescer”, diz.

Entre os papéis para se evitar Rocha, do Brasil Plural, aponta os de companhias ligadas a commodities. “Os preços baixos das commodities vieram para ficar. É um cenário inverso ao do inicio dos anos 2000. Estaria fora de siderúrgicas e mineradoras, como a Vale”, pondera o gestor. (ST)


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Fonte: Jornal Valor Econômico